A recente disparada dos preços do petróleo no mercado internacional recolocou o etanol no centro das discussões sobre segurança energética e transição para fontes renováveis. Impulsionado pelas tensões no Oriente Médio, o avanço das cotações da gasolina e do diesel elevou a demanda por biocombustíveis em diversos países, fortalecendo o papel estratégico do etanol na matriz energética global.
Apesar do cenário favorável ao consumo, o setor sucroenergético brasileiro enfrenta um ambiente financeiro mais desafiador. O aumento dos custos operacionais, a expansão da oferta e as limitações na formação de preços têm reduzido as margens das usinas, impedindo que o chamado “boom do etanol” se transforme em um ciclo de forte rentabilidade para as empresas.
O atual momento ajuda a explicar uma contradição no mercado: enquanto o etanol ganha relevância internacional como alternativa aos combustíveis fósseis, as usinas convivem com pressão crescente sobre os resultados financeiros.
Produção recorde amplia oferta no Brasil
Segundo estimativas da Datagro, a produção de etanol no Centro-Sul deverá alcançar 38,61 bilhões de litros na safra 2026/27, considerando o etanol produzido a partir da cana-de-açúcar e do milho.
O volume representa um recorde histórico para o país e reflete tanto o avanço da moagem quanto o crescimento da demanda internacional por combustíveis renováveis.
No entanto, o aumento da produção ocorre em um contexto de pressão sobre os preços domésticos.
No Brasil, o etanol hidratado mantém competitividade principalmente quando seu valor corresponde a até 70% do preço da gasolina nas bombas. Esse parâmetro funciona como uma espécie de teto informal para o combustível renovável, limitando repasses mais agressivos ao consumidor.
Segundo Guilherme Nastari, diretor da Datagro, o setor entra em uma nova fase após anos de elevada rentabilidade.
De acordo com o executivo, depois de cinco a seis anos considerados muito positivos para as usinas, o crescimento da oferta aliado à redução dos preços passou a pressionar os resultados financeiros das empresas.
Custos operacionais aumentam e pressionam setor
Ao mesmo tempo em que enfrenta limites para reajustar preços, o setor sucroenergético convive com aumento significativo dos custos de produção.
Nos últimos ciclos agrícolas, itens como fertilizantes, defensivos agrícolas, maquinário, fretes e combustíveis registraram forte valorização. A alta do petróleo também elevou os gastos com diesel utilizado em caminhões, tratores e operações industriais das usinas.
Além disso, os conflitos internacionais agravaram problemas logísticos globais, ampliando custos operacionais e dificultando o abastecimento de insumos.
Na prática, muitas empresas passaram a operar em um cenário no qual o crescimento das receitas não acompanha o avanço das despesas.
Medidas do governo limitam avanço dos preços
Outro fator que influencia o mercado é a política de preços dos combustíveis no Brasil.
Mesmo em períodos de alta do petróleo, os reajustes da gasolina costumam ocorrer de forma gradual, reduzindo a capacidade das usinas de transferirem integralmente os aumentos de custos para o etanol.
O setor também acompanha medidas adotadas pelo governo federal para conter os impactos da crise energética sobre os combustíveis domésticos.
Entre elas está a Medida Provisória publicada neste mês, que prevê subsídios de até R$ 0,89 por litro para produtores e importadores de gasolina, com o objetivo de amenizar os efeitos da volatilidade internacional sobre os preços internos.
Endividamento e juros elevados aumentam preocupação
O ambiente financeiro mais sensível também passou a preocupar investidores e empresas do setor sucroenergético.
As incertezas relacionadas aos conflitos no Oriente Médio ampliaram os temores sobre inflação global e manutenção de juros elevados em diversos países, mantendo alto o custo de capital para companhias do agronegócio.
Nesse contexto, o pedido de recuperação extrajudicial da Raízen, protocolado em março, aumentou a atenção do mercado em relação ao nível de endividamento das empresas e à capacidade de adaptação do setor diante do novo cenário econômico.
Etanol de milho muda dinâmica do mercado
A expansão acelerada do etanol de milho também vem alterando a dinâmica do setor no Brasil.
Nos últimos anos, novas plantas industriais passaram a operar principalmente na região Centro-Oeste, ampliando a oferta nacional do combustível e aumentando a concorrência entre produtores.
Esse movimento levou diversas empresas a reverem estratégias de longo prazo, buscando reduzir a dependência exclusiva do etanol tradicional produzido a partir da cana.
Além da produção de açúcar e etanol, usinas ampliam investimentos em biogás, biometano, cogeração de energia elétrica e aproveitamento de resíduos industriais.
Algumas companhias também passaram a utilizar o etanol de milho para manter operações durante a entressafra da cana-de-açúcar.
Diversificação ganha espaço no setor sucroenergético
A diversificação aparece como alternativa para preservar margens e ampliar receitas em um mercado mais competitivo.
O diretor comercial e acionista da Energética Santa Helena, Luis Coutinho, afirmou que a companhia intensificou investimentos em açúcar e etanol de milho após enfrentar recuperação judicial.
Segundo ele, a estratégia busca elevar a rentabilidade sem necessidade de ampliar significativamente a moagem de cana. A empresa também retomará atividades ligadas à pecuária, aproveitando coprodutos da usina para alimentação animal.
Etanol segue estratégico, mas desafio muda de foco
Mesmo diante das dificuldades financeiras, especialistas avaliam que o etanol continuará ocupando posição central na matriz energética brasileira e global, especialmente em meio à busca mundial por fontes renováveis e redução das emissões de carbono.
O cenário atual, porém, indica uma mudança importante no foco das empresas do setor.
Mais do que ampliar o volume de produção, o principal desafio das usinas passa a ser encontrar novas fontes de receita, diversificar operações e preservar margens em um ambiente de maior concorrência e custos elevados.
Fonte: Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio


















